quinta-feira, 16 de maio de 2013
OS CAMPEÕES DAS VITÓRIAS MORAIS
Os portugueses são os campeões das vitórias morais. Não ganhamos mas deveriamos ter ganho. Mereciamos mais ganhar do que os que verdadeiramente venceram. Tudo isto não é mais do que o espirito sebastianico que ainda paira na cabeça dos portugas, mais de 400 anos depois da morte do menino-rei. Porque não assumimos humildemente que os que nos venceram foram melhores do que nós? Teremos sempre que demonstrar a nós próprios que somos os maiores para esconder a nossa sistemática incapacidade de vencer? E mesmo quando formalmente vencemos (é raro), porquê esconder que vencemos graças às ajudas que recebemos de terceiros (normalmente eles próprios interessados na nossa vitória ou na derrota dos nossos adversários)?
As vitórias constroem-se com trabalho sério e comprovado talento e são raramente fruto do acaso. Em Portugal crê-se pouco nisto e confia-se mais na sorte ou nas intervenções divinas. Por isso é que o santuário de Fátima é um sucesso que tem servido à Igreja como montra duma espiritualidade que não existe. Os portugueses são cada vez mais agnósticos e poucos crêem nas Aparições. Mas há que alimentar o ego, pois sem ele o povo morre de inanição. O Ronaldo e o Mourinho são dois bons exemplos do que digo. Excepções saídas dum povo amorfo e sem garra, precisaram de partir para demonstrar o seu genial talento construido à força de muito trabalho e determinação (não confundir com a tradicional teimosia portuguesa fruto da ignorancia e do medo de errar, que entorpece a acção). O mesmo se passou com Damásio, Vieira da Silva ou o Padre António Vieira, por exemplo, que se não tivessem emigrado ninguem os conheceria. E o genial Eça ou Fernando Pessoa seriam tão conhecidos se não tivessem passado a maior parte das suas vidas no estrangeiro? Muitos exemplos de portugueses excepcionais existem, mas todos eles precisaram de ser reconhecidos no estrangeiro para que a sua excepcionalidade se revelasse.
Para vencer seja o que for ou seja no que for, é necessário uma grande dose de trabalho e de determinação. Talento e sorte tambem. Mas isso nós temos tanto como os outros. Falta-nos juízo e capacidade de trabalho. E um pouco de mais pontualidade e organização. Os emigrantes portugueses que o digam. Não é por acaso que são geralmente apreciados onde se fixaram.
ALBINO ZEFERINO (correspondente diplomático aposentado) 16/5/2013
terça-feira, 14 de maio de 2013
O FIM DO CAMINHO
Será que chegamos mesmo ao fim? Não quero aceitar que assim seja mesmo se a evidência dos factos a isso me impele. O anunciado encerramento da famosa 7ª avaliação da troika no Conselho Ecofin de ontem, com a aceitação formal de um plano de austeridade cuja implementação é obviamente impossivel de executar, deixa duas possibilidades de interpretação em aberto. A primeira é formal e a outra é substancial , mas ambas são contra nós. Formalmente significa que a Europa e o FMI tudo fizeram para nos salvar, mas que fomos nós com os nossos rodriguinhos de povo atrasado que não quisemos redimir-nos, apesar da ajuda excepcional que nos foi dada. A interpretação substancial é a de que independentemente daquilo que o povinho queira ou não queira, vamos ser salvos pela Europa e pelo FMI, pois isso é indispensável para a própria salvação da Europa. Atrever-me -ia a pensar que as duas interpretações se completam embora pareçam antagónicas. Seremos salvos apesar de não querermos, pois a salvação não será aquela que esperamos.
Portugal não será a Califórnia da Europa, nem sequer a Flórida da Europa. Será quando muito o Porto Rico da Europa ou a Cuba da Europa. Mas continuará formalmente a fazer parte da Europa porque convém mais à verdadeira Europa que assim seja. As periferias são necessárias para servirem de lixeira dos centros. Lixeira industrial (há que ter sítio para despejar os detritos industriais), lixeira humana (há que ter lugar onde despejar os velhos que nunca mais morrem), lixeira social (há que encontrar espaço onde despejar os inadaptados sociais, que incomodam) e lixeira turistica (há que dar sardinhas e vinho tinto aos que hoje conspurcam a Côte dÁzur e a Riviera italiana).
Como chegámos a isto? Apresentava João Duque no último Expresso a seguinte constatação: "Em 2000, a economia portuguesa ocupava o 22º lugar no ranking da competitividade mundial elaborado pelo WEF. Em 2012, Portugal ocupa o 49º lugar desse mesmo ranking. Isto é, em 12 anos conseguimos a extraordinária façanha de descer 27 lugares no ranking da competitividade mundial! Simultaneamente, conseguimos a extraordinária proeza de passar o endividamento publico de 50,7% do PIB para 123,6%, no mesmo período! " Pergunta depois João Duque: "Com tanto dinheiro recebido da Europa e com tanta dívida emitida durante esse período, onde está o resultado ou onde está esse dinheiro?" É na resposta a esta pergunta que devemos procurar as causas da desgraça colectiva na qual estamos hoje mergulhados.
ALBINO ZEFERINO 14/5/2013
domingo, 12 de maio de 2013
SÓ MERECE GANHAR QUEM LUTAR PARA GANHAR
Sábio dito popular pronunciado ontem por um portista no calor do entusiasmo da vitória do seu clube sobre o natural candidato ao titulo de campeão para 2013, que pode ser aplicado aos portugueses nesta fase crucial que Portugal atravessa em busca da salvação nacional.
Tal como o FCP ganhou no último minuto ao seu adversário, tambem há que manter a esperança de que Portugal - por muita debilidade que a sua recuperação aparente - consiga sair airosamente da situação critica em que se encontra. Sabemos que à medida que o tempo vai passando, cada vez depende menos de nós essa recuperação. Mas há que ter esperança e continuar a lutar para sairmos vencedores desta guerra contra nós próprios e contra as nossas mentalidades matarruanas.
Quanto menos relevancia tiver a nossa vontade como povo para decidir do nosso destino colectivo, mais importancia tem a demonstração da nossa vontade politica em lutar para ganhar. Ganhar juizo, ganhar independencia, ganhar competencia para nos sustentarmos a nós próprios, ganhar riqueza e ganhar o respeito dos outros. Para isso há que mostrar solidaridade entre nós e não antagonismos na forma de atingir os resultados que nos são impostos. A luta é uma luta contra nós próprios, contra os nosso vícios, contra o atraso estrutural resultante dos nossos maus hábitos, contra a nossa proverbial falta de produtividade, contra a nossa desorganização, contra a nossa preguiça mental e fisica, contra a nossa falta de rigor e de pontualidade, contra a nossa permanente dependencia psicológica dos outros, enfim, contra a nosso sub-desenvolvimento, que os nossos parceiros prosaicamente apelam de periferismo. Somos psicologicamente, economicamente e socialmente periféricos, não só sob o ponto de vista geogáfico, mas sobretudo no que toca à nossa capacidade de nos desenvolvermos. Muito já se tem feito desde que aderimos à Europa, onde sempre pertencemos geograficamente. Mas agora que essa Europa onde estamos está em crise profunda, temos que demonstrar que merecemos fazer parte dela. Só merece ganhar quem lutar para ganhar, como dizia ontem o tripeiro feliz com a constatação da grandeza do seu clube.
Enquanto continuarmos a perder o nosso tempo e a nossa credibilidade em guerras de manjericos e manjeronas, nunca mais sairemos deste lodaçal onde estamos metidos. Há que lutar para ganhar, lutar unidos num mesmo propósito contra os nossos instintos ancestrais para ganhar a credibilidade daqueles de quem hoje dependemos para viver. Só assim sobreviveremos como país membro duma Europa unida, única forma de não nos pulverizarmos como povo autónomo, herdeiro de glórias e de façanhas que ajudaram a construir o mundo moderno em que hoje vivemos. Saibamos ser dignos dos nossos maiores, lutando para ganhar como eles fizeram.
ALBINO ZEFERINO 12/5/2013
sexta-feira, 10 de maio de 2013
OS RICOS QUE PAGUEM A CRISE
A população votante em Portugal pode ser hoje dividida entre os que têm alguma coisa a perder com a austeridade (dinheiro, bens materiais, propriedades, emprego, reforma, ambições, etc.) e os que não têm nada a perder com ela, por não possuirem nada. Como cada vez há mais pessoas que nada têm a perder, a não ser os subsidios do Estado de onde vivem, as hipóteses de surgimento de governos que prometem coisas (mais subsidios, mais dinheiro, mais empregos, mais esperanças e menos austeridade) são cada vez maiores.
Quem tem alguma coisa, não quer deixar de continuar a ter (são os conservadores, de direita ou de esquerda, conforme a origem daquilo que têm) e quem nada tem, quer passar vir a ter (venha do Estado, através de apoios ou de subsidios, ou venha de quem vier e seja de que forma for, mas desde que venha). São os progressistas ou revolucionários, que querem mudar por mudar. Com a mudança vem o progresso, dizem.
Para os que ainda podem perder alguma coisa com as mudanças (e em periodo de austeridade as mudanças são geralmente sempre para pior para quem tem) não interessa alterar o statuo quo. Para os que nada têm a perder, as mudanças são bemvindas pois sempre podem trazer algum beneficio. Mais mal é que já não podem trazer.
Transpondo este raciocinio básico para a politica, verifica-se que os que têm, preferem que o Estado reduza na despesa, enquanto que os que nada têm, exigem que o Estado aumente as receitas. Como em austeridade não há outro modo de aumentar receitas senão atraves do aumento dos impostos, os que nada têm a perder querem que o Estado retire dinheiro, atraves dos impostos, aos que têm, para assim poder continuar a prestar aos que nada têm os serviços de que eles necessitam para viver. Chama-se a isto o Estado Social. Em pleno PREC, em 1975, gritava-se nas ruas: "os ricos que paguem a crise", como se o facto de se possuir alguma coisa fosse sinónimo de culpa pelo estado lastimoso em que estava o paìs e portanto criador da obrigação de sustentar os que nada tinham. Hoje a situação é semelhante. Como cada dia que passa, os que têm, cada vez têm menos e os que nada têm, cada vez são mais numerosos, já não há ricos para pagarem a crise, por muito que os pobres reclamem.
É esta o dilema que o governo enfrenta e que outros que lhe venham a suceder enfrentarão, por muito, muito tempo. Perder dinheiro, perde-se num instante; ganhá-lo, porem, custa muito e exige tempo e sacrificios. Tempo para voltarmos ao que eramos antes da crise, vamos tendo cada vez menos. Sacrificios, ninguem está disposto a fazê-los. Nem os que têm, nem os que não têm. Os que têm, não querem pagar mais impostos ou perder as regalias a que o Estado perdulário os habituou; os que nada têm, não querem abdicar do Estado social que os sustenta e atraves do qual sobrevivem.
Encontrar o equilibrio entre os sacrificios a impor equitativamente aos que têm e aos que nada têm, é a exigente tarefa que o governo enfrenta. Poupar à austeridade os que nada têm, com o argumento de que não se lhes pode exigir mais sacrificios, à custa de espoliar os que ainda têm, porque por muito que se lhes tire ainda ficam com alguma coisa, é redutor do desenvolvimento e contribui para o empobrecimento do país. Deixar que uns quantos sujeitos escolhidos arbitrariamente por uns quantos deputados esquemáticos, vigiem a equidade das medidas decididas pelo governo, pondo em causa a continuidade deste país de séculos, é inadmissivel. Aos olhos dos alemães, dos ingleses, dos espanhois ou dos malteses. Deixemo-nos de dogmatismos balofos e provincianos e tenhamos a coragem de enfrentar juntos esta crise violenta que nos tocou viver, com coragem, determinação e verdadeira solidaridade entre todos e não só entre alguns.
ALBINO ZEFERINO 10/5/2013
terça-feira, 7 de maio de 2013
OS GUARDIÕES DO TEMPLO
O templo erguido em nome da Democracia abarcava com a sua imponente presença a totalidade do espaço vital do povo da cidade que, como formigas laboriosas, labutava sem descanso no seu rotineiro quotidiano. A guardá-lo dos eventuais ataques com que perigosamente era ameaçado pelos que o denegriam, estavam os guardiões do templo, espécie de monges-soldados dispostos a darem a vida e a reputação por ele. Os tempos não estavam fáceis para os guardiões do templo. Constantemente atacados e vilipendiados pelos que aleivosamente desferiam os seus vis ataques às instituições democráticas que o templo representava, os guardiões defendiam como podiam o sacrossanto templo que lhes dera o nome e a razão de existir. Munidos de acordãos acutilantes e mortais, os guardiões defendiam o templo com determinação e vigor das investidas destruidoras dos traiçoeiros atacantes, na esperança de acabar definitivamente com eles que, desta vez, ameaçavam decisivamente o sagrado templo nos seus próprios fundamentos.
Só que desta vez - mau grado a feroz refrega estar pendendo para o seu lado - os atacantes, cansados de tanto lutar, resolveram desistir e entregar-se à furia vingativa da populaça. O resultado traduziu-se numa vitória inesperada dos guardióes do templo, que, cheios de glória imerecida, se lançaram aos despojos dos que durante mais de dois anos corajosamente tentaram construir um novo mundo livre de templos e de preconceitos.
Chegados ao poder, os novos senhores logo se apressaram a entrar no templo, tal como os agora vencidos tinham tentado. Só que, desta vez, os guardiões franquearam-lhes as portas e, como bons samaritanos, escancararam-lhes despudoradamente as portas do templo. Entrados no recinto, os novos poderosos verificaram que o povo por quem lutaram e que diziam defender estava morto. A defesa exagerada dos guardiões tinha deixado o templo sem ar e o povo, sufocado, morrera asfixiado. Foram declarados funerais nacionais aos quais ninguem compareceu, apenas alguns solicitadores de execução que, munidos de calculadoras, adiantavam trabalho.
ALBINO ZEFERINO 7/5/2013
domingo, 5 de maio de 2013
OS ALEMÃES
Ainda há umas dezenas de anos (para a História de um povo é pouco tempo) os alemães foram acusados colectivamente de terem destruido a Europa, ao apoiarem Hitler nas suas megalomanias assassinas. Depois do sofrimento atroz da guerra com os seus bombardeamentos e destruições (30 milhões de mortos alemães e a maioria das cidades do país arrasadas), o povo alemão foi submetido ao vexame da ocupação militar estrangeira e dos julgamentos marciais, tendo ficado fisicamente dividido por um muro que ficou conhecido pelo muro da vergonha e separado por fronteiras intransponíveis a que se chamou a cortina de ferro. Familias de um e do outro lado separadas sem se poderem ver nem falar, propriedades desfeitas pela divisão do país em zonas de ocupação, perseguições e morte dos que tentavam passar para o lado bom (eu vi os letreiros dos abatidos pela Stasi pendurados no muro em Berlim), arames farpados por todo o lado, terra de ninguem minada no meio da capital, fronteiras austeras no meio do país militarmente vigiadas, enfim, um ambiente hostil e ameaçador durante os quase 30 anos em que a Alemanha esteve dividida. Pois essa Alemanha é hoje (67 anos depois da guerra e 14 depois do derrube do muro da vergonha) o país líder da Europa, que pretende ser o condutor duma união continental criada pelos seus outrora inimigos.
Não será assim dificil de entender a determinação da hoje democrática Alemanha em preservar as conquistas que o seu saber, a sua vontade colectiva e o seu trabalho conseguiram em tão pouco tempo. A criação do euro como elemento aglutinador duma Europa em construcção é assim vital, aos olhos dos alemães, para a sua redenção. É por esta razão que os alemães não desistirão facilmente da moeda comum europeia, nem da única forma que existe de preservar a paz neste continente de egoismos nacionais e de incompreensões colectivas, que é a União Europeia.
Ao contrário do que muitos pensam, não é o desejo de conquista territorial ou de influencia nacional que move os alemães na sua determinação no saneamento financeiro e económico dum continente em queda de prestigio e de importancia global. É precisamente para preservar esse prestigio e essa importancia que os alemães se esforçam em ajudar os países que, como o nosso, estão comprometendo esse desiderato essencial. Sem que todos os países membros dessa original união continental estejam em condições de prosseguir no caminho duma maior integração económica que possa ombrear com o crescimento acelerado das chamadas economias emergentes, não será possivel aprofundar a integração europeia como está planeado, alargando a União aos países ainda fora dela e munindo as instituições europeias com os meios necessários ao desenvolvimento sustentado do projecto europeu.
Será assim necessário que os países em crise profunda de sustentação financeira e económica, como o nosso, se consciencializem dos indispensáveis esforços que têm que ser feitos, quer a nível pessoal, quer a nível estrutural, para continuarmos inseridos no único sistema de sobrevivencia possivel que se nos oferece. Não é lançando-nos uns contra os outros na tentativa de preservar as benesses de que alguns ilegitimamente gozam, ou tentando aproveitar-se da confusão que a situação de crise generalizada proporciona a outros, que vamos resolver o nosso problema. Tentemos articular os nossos esforços uns com os outros, para que consigamos, com muito trabalho, com muitos sacrificios e sem reservas mentais, sair deste enorme buraco em que estamos metidos.
ALBINO ZEFERINO 5/5/2013
sábado, 4 de maio de 2013
O DESESPERO DOS DESESPERADOS
O discurso mole ontem proferido pelo primeiro ministro nas televisões, anunciando finalmente cortes na despesa publica e comunicando aos portugueses a desejada chegada da salvação nacional, caiu como uma bomba nos corações dilacerados dos partidos politicos oposicionistas (e não só), que de imediato lançaram contra o homem vilipendios esganiçados de furia incontida, como se ele fosse um qualquer Duas-caras da série do Batman, desejoso de destruir a cidade para depois se apoderar dos seus escombros.
Claro que toda a gente já sabia o que Passos iria dizer. Só os mais distraidos puderam legitimamente invocar surpresa em relação às duras medidas anunciadas. Toda a gente sabe que há funcionários publicos a mais e que o seu regime laboral e retributivo é mais favorável que o dos restantes trabalhadores do país. A coisa já vem de longe (eu diria que do século passado) e tambem não é novidade para ninguem que siga estas coisas da crise com algum seguimento, que 70% da despesa anual do Estado se esvai em salários, ajudas de custo, reformas e demais beneficios sociais (ADSE, subsidios vários, regimes especiais para algumas carreiras, etc.) que custam ao erário publico o dinheiro que tem e que não tem (por isso o Estado se vem endividando progressivamente, chegando a divida publica hoje a mais de 140% do PNB).
Virando o bico ao prego, os oposicionistas reclamam que a austeridade recai sistematicamente sobre os mesmos, poupando aos malandros dos capitalistas os sacrificios que maldosamente o governo vem impondo desde há dois anos sobre o desgraçado povo portugues, já tão maltratado pelas agruras que a maldita crise lhe vem provocando, esquecendo (ou fingindo esquecer) que não é possivel poupar sem fazer sacrificios. Basta, diz Seguro fazendo boquinhas, do alto da sua pesporrante oposição alternativa, recusando-se a colaborar na única maneira de recuperar o país. Unica, pois se houvesse outra menos penosa, já estaria a ser aplicada. Não seria preciso Seguro clamar por ela.
O pais está dividido ao meio (como sempre esteve), 50% das pessoas estão à esquerda e 50% delas estão à direita. O traço contudo passa pelo meio do PS. É por isso que Seguro está entalado. Se diz que é pela recuperação do país através da única maneira possivel de o fazer, é logo substituido por Costa ou por Assis. Se, pelo contrário, recusa a austeridade (tentando enganar o povo com alternativas inexistentes) a metade dos xuxas não-marxistas vai-se a ele ou vai-se embora. É este o drama do Seguro e do PS. Toda a gente já percebeu (à excepção dos ignorantes ou dos demagogos) que se Seguro estivesse no poleiro faria exactamente o mesmo que Passos (tal como o malandro do Sócrates foi obrigado a fazer). Quem manda em nós é a troika, pois sem ela não há dinheiro para ninguem e sem dinheiro não há pão. Diz o povo que "casa onde não há pão, todos ralham e ninguem tem razão".
Falta agora o pimpolho do puto dizer tambem umas coisas. Deixou para domingo, o dia do Senhor. Com o tempo que o sol nos promete, é possivel que ninguem o oiça. Não será porem coisa de sustancia, pois sem a troika o gajinho já tinha saltado do poleiro. E quando saltar, será para voltar com os seus tres amiguinhos de novo para dentro do táxi.
Tenhamos paciencia, juizo e alguma contenção nas nossas atitudes. O caminho é duro mas seguro. Haveremos de lá chegar. Seguros, sem Seguro, mas seguramente.
ALBINO ZEFERINO 4/5/2013
segunda-feira, 29 de abril de 2013
A SAÍDA DO EURO
Na sequência da constatação da confusa situação em que o país se encontra, em resultado da aplicação da austeridade sem o lançamento duma politica de crescimento em paralelo, o PS arvorou em arco e, de congresso em congresso, já só fala no que vai fazer quando for para o governo. Esquecem-se os apressados xuxas que sem a resolução prévia dos problemas financeiros, que a danosa gestão anterior da coisa publica (veja-se agora a questão dos swaps com dinheiros publicos, a acrescentar à criminosa prodigalidade despesista do governo anterior), nada se pode fazer, pois enfiar dinheiro numa economia falida sem antes a regenerar, é o mesmo do que deitar dinheiro no cano de esgoto. Sem um saneamento eficaz das contas publicas, não é possivel lançar politicas de crescimento.
A situação económica e social continua na mesma, senão pior,do que quando foi pedida a ajuda financeira excepcional que determinou essa mesma austeridade de que os xuxas (e quejandos) se queixam. Se o PS estivesse no governo nada poderia fazer de diferente do que o actual governo faz. Por isso não vale a pena fazer eleições intercalares. Ao assinalar isto mesmo no seu ultimo discurso, Cavaco limitou-se a constatar uma realidade óbvia. Outras interpretações, são manifestações demagógicas de desespero, oriundas de sectores desencantados com a falta de capacidade do governo em atingir os resultados previstos no plano de saneamento financeiro, que constitui o plano da troika.
Enquanto não se conseguir eliminar decisivamente as fontes de despesa excessiva do Estado (empresas publicas inuteis, empresas municipais perversas, gestões danosas dos dinheiros publicos, excesso de mordomias gastadoras, excepções às regras de boa gestão em alguns sectores publicos, desmantelamento de intervenções escusadas do Estado nos mercados, controle eficaz das despesas com o famigerado Estado social, saneamento completo do funcionalismo publico, intervenções do Estado na comunicação social, concessão ao sector privado de funções publicas manifestamente melhor efectuadas pelos privados, etc., etc.) não será possivel por em marcha nenhum plano de recuperação económica, por muito bem elaborado que esteja.
Foi para recordar isto mesmo aos portugueses (e aos espanhois e aos italianos) que na semana passada um desconhecido comentarista politico alemão (mas certamente avalisado pelo seu governo) afirmou publicamente que a saída temporária da Grécia e de Chipre da zona euro seria uma boa solução para ajudar esses países a recuperar o equilibrio perdido, por anos de desacatos financeiros e de aldrabices escandalosas. Não se pense que a união bancária, ou qualquer outra manifestação de maior integração europeia se faça, sem que os Estados nela a envolver estejam completamente saneados financeiramente. O euro não aguentaria por muito mais tempo. O que os alemães pretenderam dizer nas palavras sibilinas deste desconhecido comentador foi que, não querendo (ou não podendo) os governos dos países intervencionados (ou a intervencionar) fazer esse saneamento, então terão que afastar-se do grupo dos países da frente, deixando aos países em condições de avançar que prossigam na via dum maior aprofundamento da União europeia, única forma de permitir que o nosso continente não venha a ser engolido pelos gigantes da globalização.
Portugal está numa encruzilhada decisiva para o seu futuro como país soberano e independente, incluido numa organização virtuosa de Estados que luta por não perder o seu lugar cimeiro no concerto das Nações mais civilizadas. Não permitamos que o sebastianismo nacional, misto de ilusão e de desânimo colectivos, nos arraste para lugares onde, pela nossa história e pela nossa contribuição para a civilização, não merecemos estar.
ALBINO ZEFERINO 29/4/2013
sexta-feira, 26 de abril de 2013
O DISCURSO DE CAVACO
Tem sido hábito analisar à exaustão os discursos do Presidente sempre que ele se dirige oficialmente ao país. Ontem não foi excepção. Aplaudido pela direita e vilipendiado pela esquerda, o discurso de Cavaco limitou-se, como sempre, a dar uma no cravo e outra na ferradura, como qualquer diligente ferrador o faria. Cavaco já nos habituou às meias-tintas. Nunca diz exactamente o que pensa, parecendo guardar para nova oportunidade o desvendar de um segredo que naquela altura não lhe parece oportuno revelar. Só que não há segredos escondidos nem soluções milagrosos aguardando oportunidade para aparecerem. A situação é dramática e só a paciencia dos nossos credores ainda não permitiu que tivessemos já ido todos pelo cano abaixo.
Pena é que todos, à excepção dos próprios visados, já tenham compreendido que não estamos em tempos de fazer politica partidária. O PS, entalado entre a obrigação moral de não renegar a assinatura que pôs por debaixo do memorando da troika e o seu desaparecimento como partido alternativo de governo se der apoio à politica de austeridade do governo, insiste em negar a evidência que resulta da situação de impasse que tal atitude encerra. Os nossos benfeitores não conseguem compreender a razão pela qual os dois únicos partidos portugueses que estão representados nos dois grandes blocos que se sentam no Parlamento europeu não se conseguem entender no apoio à única forma de evitar que o país desabe definitivamente na escuridão dos tempos. Pois se gregos, italianos,cipriotas e irlandeses já compreenderam, porque não terão os empedrenidos portugueses ainda percebido ? Serão mais lentos de entendimento ou será que não estão conscientes da situação critica em que se encontram?
Agora que se aproximam as eleições alemãs e que as sondagens não apontam para a formação duma maioria estável de um só partido no Bundestag, ninguem lhe passa pela cabeça que nesta altura do campeonato europeu os dois grandes partidos alemães equivalentes ao PS e ao PSD portugueses não se coliguem para poder melhor enfrentar os desafios da salvação de uma Europa unida. Vá lá alguem explicar aos nossos amigos alemães a razão da teimosia dos socialistas portugueses.
Sem ter sido tão explicito, Cavaco deixou esta mensagem no ar no seu discurso de ontem. O problema é que os socialistas (mais preocupados nas suas lutas intestinas do que na salvação do país que anseiam voltar a governar) o que querem é eleições, para enterrar definitivamente o país no lodaçal que fizeram durante os ultimos 15 anos em que conduziram os destinos deste pobre país à deriva.
ALBINO ZEFERINO 26/4/2013
domingo, 21 de abril de 2013
A CAMINHADA PARA O ABISMO
À medida que as avaliações da troika se vão sucedendo (e já lá vão sete) que se vai tornando mais evidente que a forma "certinha" como o governo está conduzindo o país para a sua pretensa salvação não tem sido a correcta. O velho aforismo de que "não se podem fazer omoletes sem partir os ovos" cabe nesta análise como uma luva. Senão vejamos.
Se Cavaco tivesse feito aquilo que se esperava dele após as eleições de há dois anos, ou seja, não ter empossado um governo sem condições de reduzir o défice orçamental nem de diminuir o limite da dívida publica, sem antes se assegurar do que hoje parece óbvio a toda a gente (excepto aos próprios envolvidos) , ou seja, a existencia de um consenso partidário alargado que permitisse avançar com as medidas necessárias para o efeito sem obstáculos constitucionais e politicos, não estariamos hoje numa situação de impasse de dificil saída e com consequencias eventualmente trágicas para a manutenção do país dentro dos parametros exigidos para a pertença ao euro-grupo de que Portugal ainda faz parte. Já Paulo Teixeira Pinto apresentara nessa altura um projecto de revisão constitucional que foi liminarmente recusado por todos, como se de um ataque contra-revolucionário à sacrossanta Constituição de 1976 se tratasse.
Efectivamente, ao contrário do que inicialmente o governo apregoava, nem o memorando da troika que nos guia foi bem desenhado, nem o financiamento à economia tem sido feito, nem deixa de ser preciso mais tempo e mais dinheiro para continuarmos com o ajustamento, nem Portugal consegue chegar aos mercados em setembro próximo, nem a economia vai começar a recuperar a partir deste ano, nem as privatizações e reestruturações aumentaram a concorrencia e baixaram os preços, nem o ajustamento feito até agora vai atrair o investimento estrangeiro. E isto tudo porquê? Porque não há suficiente base politica para que o governo tome as medidas verdadeiramente necessárias para reformar o país. Com o apoio do PS, negociado previamente à formação do governo sob os auspicios presidenciais (a tal magistratura de influencia inventada por Soares), tudo teria sido mais fácil e mais civilizado. Assim, ao contrário do que o governo apregoa, estamos hoje mais próximos dos gregos e mais longe dos irlandeses.
Muita informação enganosa tem sido despejada sobre os pobres dos portugas, já cansados de tanta indefinição e de falta de clareza. Cada um dos protagonistas do poder terá que arcar com a responsabilidade dos seus actos. Sejam os do governo, sejam os da oposição. Fingir que estamos vivendo um período normal da nossa vida colectiva, apenas atravessado por uma arreliadora crise de conjuntura (de resto provocada por outros que não nós), onde todas as manobras habituais da politiquice são permitidas, é um crime de lesa-pátria que deve ser denunciado e severamente punido. Ferreira Leite dizia sabiamente que ganhariamos todos se a democracia fosse interrompida por uns tempos até que a casa pudesse ser posta em ordem. Esta opinião custou-lhe o lugar nessa altura. Hoje não tenho duvidas quanto à verdade disso. Mas vá lá alguem propor isso agora de novo!
No periodo da democracia dos ultimos 35 anos, esta foi a terceira vez que nos vimos forçados a pedir a intervenção de estrangeiros na gestão das nossas contas publicas. Fomos o unico país ao qual isso aconteceu, o que quer dizer que algo está mal nesta republica. Não há duvida que temos Estado a mais. É o Estado quem está falido, não são as pessoas nem as empresas que conduziram o país a esta situação de indigencia. Se queremos reduzir as despesas do Estado e se 70% dessa despesa é consumida em salários e em prestações sociais, então é nesses sectores que há que cortar. Sejamos patriotas e encaremos os problemas de frente, sem rodriguinhos e sem falácias. Patriotas não são só aqueles que dão a vida pela Pátria!
ALBINO ZEFERINO 21/4/2013
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