domingo, 26 de abril de 2015

A DEMOCRACIA E OS SEUS LIMITES


          A democracia, como tudo na vida, é um conceito relativo. Relativo porque não é absoluto. Não há democracia absoluta, como nada na vida é absoluto. Nem a própria vida. Significa isto que o exercicio do poder pelo povo (através dos seus legitimos representantes) é relativo. Relativo em relação à forma e relativo em relação à matéria. O relativismo formal da democracia manifesta-se através da circunstância dele só poder ser exercido através dos partidos politicos. Quer isto dizer que é só dentro dos limites programáticos e pessoais que cada partido apresenta que as escolhas populares podem ser feitas. Mas tambem relativismo em relação à matéria. As escolhas só podem recair nas matérias que os partidos decidirem submeter ao veredicto popular.
          Ora as próximas eleições que vão ser propostas ao eleitorado portugues revestem este relativismo. Quer isto dizer que o povo portugues vai ser confrontado apenas com as opções governativas que os candidatos a próximos deputados configurem dentro dos partidos que os irão propor à eleição. E não a quaisquer outras. Significa assim que os portugueses só poderão exercer o seu direito de voto dentro dos limites, quer formais (só podem votar nos candidatos previamente escolhidos pelos partidos), quer materiais (só se podem pronunciar sobre as matérias programáticas que lhe sejam propostas pelos partidos) que os partidos politicos lhes apresentarem.
          Vem toda esta lenga-lenga a propósito daquilo que verdadeiramente será dado a escolher aos portugueses nas próximas eleições que aí vêm. Se uma mudança radical nos paradigmas governativos (p.ex. a instalação de um governo tipo Syrisa em Portugal, que conteste por sistema todo o edificio reformador proposto pela União europeia, dentro dos condicionalismos emanados dos tratados europeus); se apenas uma alteração de rumo nas decisões governativas, dentro dos limites impostos pelas instituições europeias (p.ex.de um governo defensor dum abrandamento da austeridade, mesmo que isso represente um atraso na recuperação económica do país); ou a manutenção da determinação governativa em ultrapassar o mais rapidamente possivel a crise economica, mesmo que isso represente a continuação da austeridade por mais uns tempos). Creio que as opções eleitorais que se vêm definindo se podem resumir a estas tres. Não antevejo outras.
          Eis pois o quadro em que se irão mover as próximas eleições legislativas, com as limitações e as margens de manobra que os diversos partidos em presença poderão contar. Quanto às eleições presidenciais que lhes sucederão, o panorama será outro. O Presidente da Republica tem sido sempre olhado pelos eleitores como o lídimo representante do povo portugues. Já contam menos, as suas origens politicas e as suas preferencias partidárias (a Constituição não lhe confere poderes executivos e mesmo os poderes moderadores que tem, tendem a passar para a Assembleia legislativa em próximas revisões constitucionais). O que se procura é alguém que defina o país em função duma época. Eanes representou o rescaldo feliz dos desvios comunizantes do 25 de Abril; Soares foi o bem sucedido regresso ao civilismo presidencial; Sampaio representou a intelectualização que o exercicio da mais alta função do Estado exige e Cavaco foi a consagração da vitória da regeneração (embora os seus méritos politicos tenham brilhado muito mais na presidencia do governo). Agora espera-se do novo presidente, além da necessária postura de Estado que deve trazer inata, uma cultura e sensatez indispensáveis a uma eficaz e tranquila moderação politica, bem como um toque de modernidade que as novas gerações exigem como matriz do novo Portugal a que ambicionam pertencer.

                                 ALBINO ZEFERINO                                   26/4/2015

sábado, 18 de abril de 2015

GREXIT


          Desde que os gregos manifestaram nas últimas eleições legislativas o seu desânimo face às politicas europeias aplicadas ao seu país votando maioritariamnete no partido extremista Syrisa cujo lider é hoje o PM grego, que se criou uma nova crise na UE resultante das diversas reacções que os europeus (e não só) apresentam relativamente ao futuro do euro, da sua zona e até da própria União europeia. A isto chamou-se mediaticamente Grexit, que significa Grecia exit, ou seja a Grécia tem que (ou vai) sair da UE. Não há dia onde as noticias mundiais não se refiram ao estado das pseudo-negociações que o actual governo diz manter com as autoridades europeias (nomeadamente com a comissão e com o governo alemão) sem que se tenha chegado a quaisquer conclusões para sair do impasse. Os europeus (sobretudo os alemães) não cedem na exigencia de impôr aos gregos a estabilidade orçamental e a redução da sua enorme divida publica através da implementação das reformas necessárias já anteriormente negociadas, enquanto que o novo governo grego - sempre afirmando publicamente a sua fé europeia - não quer desdizer o que prometeu na campanha eleitoral que seria a luta contra a austeridade imposta pela troika que estava a destruir o bem estar dos gregos e aumentando a depressão da Grécia.
          Não se pense porém que com o Grexit tudo se resolverá, a contento dos europeus (e do resto do mundo) e dos gregos (que passariam a fazer o que lhes passasse pela cabeça sem dar contas a ninguem). Pelo contrário. Uma hipotética saida da Grécia da zona do euro comprometeria todo o edificio monetário sobre o qual a UE assenta, tal como se um constructor resolvesse a meio duma obra retirar uma das fundações (ou sapatas como se diz em linguagem de empreiteiro) da casa em construcção. O resultado seria o imediato desabamento do que já estivesse erguido. Por essa simples e óbvia razão os tratados europeus não prevêm a saida de qualquer dos membros, quer da zona euro, quer da própria União. Se o Grexit não é possivel, o que fazer então?
          Chegados a um ponto de impasse - que creio ter sido atingido - haverá que apelar à responsabilidade das partes para as consequencias que uma negociação abortada poderá acarretar. Mais ou menos como acontecia antes na iminência duma declaração de guerra. À Europa não restará outra solução (e os alemães terão que aceitar isto) do que convencer os gregos a aceitar fazer as reformas mediante um tratamento de favor (ou seja, aplicável só a eles ou aos países que estejam na mesma situação) que sairá dos seus cofres. Aos gregos tambem não restará alternativa senão manter o governo do Syrisa continuando com a austeridade anterior ou então fazer novas eleições substituindo o governo do Syrisa por outro que faça as reformas necessárias. Ambos cedem e ambos avançam para o bem de todos. É isto o que está implicito nos tratados europeus e é isto o que a maioria dos europeus espera que aconteça.

                                   ALBINO ZEFERINO                            18/4/2015

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O NOVO CICLO


          Com a chegada da Primavera iniciou-se o preâmbulo do novo ciclo politico que irá definir o Portugal dos próximos anos. É a despedida dos Cavacos, dos Passos e dos Portas, já que os Sócrates, os Guterres e os Barrosos há tempo que estão arrumados. Marcelos e Santanas ainda mexem, mas só até ao Verão. Depois de férias, outros galos cantarão. Um deles, mais apressado e talvez mais ousado, já saiu da capoeira. Refiro-me ao tal Nóvoa (que até já tem cognome, o Reitor) sob cuja candidatura vão dançar, xuxas, comunas e blogueiros, uns agarridinhos aos outros numa orgia de alegria enebriante e de bebedeira épica, sonhando com o novo Prec, que se adivinha após o duo eleitoral da época. Outros aparecerão, mas cedo passarão à história engolidos pela onda solidária que se formará atrás do nóvel Nóvoa que, aos ombros do trio dos velhotes Soares, Sampaio e Eanes, dará o tom aos novos amanhãs que cantam. Cá mais em baixo, sorrindo matreiramente, Costa exulta, pois sabe que, sem a sua iniciativa, nada se fará. E o que fará ele?
          Depois de unificado o partido, desmembrado pelas vergastadas dos inconformados seguristas (agora já todos costistas), o novo PM avançará sozinho, à Guterres, com apoios à esquerda (com quem à cautela fez acordos secretos) e à direita (agora com o amigo Rio a comandar o que ficou do PSD) e a única oposição do CDS (sob o comando de Pires de Lima, agora que Portas foi de sabática) empenhado em cescer à séria, ambicionando tornar-se no Front National portugues. Sempre com os olhos postos no Syrisa, Costa manobrará (nisso ele é mestre) para evitar os escolhos onde Tsirpas ia encalhando e, embalando na sua voz suave o pateta do Juncker, lá o irá convencer a mandar para cá os fundinhos com os quais vai "epâter le bourgeois" lusitano. Com o apoio aberto do bloco e a abstenção encapotada do PC e do PSD do amigo Rio, Costa aguentará o tempo que Nóvoa determinar, ou seja, até às eleições legislativas seguintes (2019). Até lá, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

                                       ALBINO ZEFERINO                                            13/4/2015

terça-feira, 7 de abril de 2015

MANOEL DE OLIVEIRA, O PORTUGUES PORTUENSE


          Morreu o portugues que todos gostavamos de ter sido. Popular, artista, longevo e feliz. Manuel de seu nome e tripeiro de nascimento, Manoel de Oliveira foi o típico portugues da burguesia nortenha. Boémio na juventude, sem vocação definida a não ser perseguir as moçoilas do bairro, acabou agarrado a uma máquina de filmar. Fez um filme que o tornou conhecido no meio - Aniki Bóbó - e a seguir só fez disparates. Porém, como bom portugues que era (ainda por cima tripeiro), conseguiu, com lata e descontração natural, fazer passar os tristes documentários que ia fazendo ao sabor do imprevisto (a que ele chamava inspiração) como sendo obras primas do cinema portugues. Desde o "Douro faina litoral" ao "Benilde ou a Virgem Mãe", passando pelo "Non, ou a vã glória de mandar" e outras patacuadas, aproveitadas por espertalhões como o Paulo Branco para se promoverem a si próprios à custa da saloice nacional, lá foi deixando passar os anos agarrado à máquina, até que chegou aos 100. A partir daí já não foi preciso filmar mais. A sua existencia provecta bastava para lhe dar palco neste país de revista barata.
         As suas visitas bem organizadas a Cannes e a Veneza durante os habituais festivais de cinema trouxeram-lhe amizades úteis, como Malkovitch e Deneuve, que não se cansaram de enaltecer o génio do ancião lusitano. Depois foi a época dourada das Leonores Sliveiras e do netinho Trepa, que, sem grande vocação, bastava aparecerem ao lado do genial velhote para serem aplaudidos com ele pelos mamarrachos que protagonizavam juntos sob a batuta marota do "produtor" Branco.
         Já depois de morto, foi o amigo Malkovitch quem melhor o soube definir: um espertalhão jeitoso que soube bem explorar a ingenuidade saloia do povo que o aplaudia.
         Que repouse em Paz.


                                  ALBINO ZEFERINO                                                7/4/2015
         

segunda-feira, 6 de abril de 2015

RISKY BUSINESS


          António Costa ou não define nada ou, num repente, define tudo, arriscando muito tambem. A escolha de Sampaio da Nóvoa para candidato presidencial (agora já não há volta a dar-lhe) constituiu um risco enorme. Risco para a presumivel vitória do PS nas legislativas e risco de perder tambem as presidenciais. Mas, se acerta, a vitória será estrondosa. Mata de uma só vez Guterres, Sócrates, Vitorino, Seguro e Soares e todos aqueles que os acompanham e conservará o poder por muito tempo, pois a direita ficará num frangalho.
          Como bem definiu Marcelo na sua ultima charla televisiva, a escolha dum desconhecido, ilustre, educado e com boa presença, embora sem nenhuma experiencia politica, e ao mesmo tempo federador das esquerdas tradicionalmente desunidas, traz objectivamente ao PS a novidade da experiencia em Portugal duma frente de esquerda no governo. Só que, ao mesmo tempo que une os esquerdistas órfãos do marxismo, afasta os verdadeiros socialistas democráticos, arriscando-se a uma cisão mortal no PS. Caberá assim ao ambicioso secretário geral socialista a ciclópica tarefa de aguentar os socialistas sociais democráticos, europeístas e defensores do mercado livre, juntos com os neomarxistas, sindicalistas, reivindicativos e invejosos, no apoio a um governo de coligação á esquerda, com bloquistas e comunistas e a um candidato presidencial que os representa.
          À direita as coisas tornaram-se tambem mais claras. O penoso percurso para a necessária coligação eleitoral entre PSD e PP vai apressar-se e a própria escolha (será sempre informal) do candidato presidencial oficial da direita vai começar. Apostaria num desconhecido (género Sampaio da Nóvoa à direita) como poderia ser Leonor Beleza (se não estivesse sentada no maior tacho do país) ou (se não tivesse tido uma prestação parlamentar tão apagada), ou então (mudando de registo) Alberto João Jardim (se não tivesse tido uma derrota tão pesada na Madeira).
          Seja como for, de agora em diante e até ao fim dos dois periodos eleitorais quase coincidentes que nos esperam, vamos ter animação e frisson que baste. Só desejo que depois disso não caiamos pela escada abaixo como os gregos (depois da inconsciente eleição do Syrisa para mandar nos destinos do país) e deitemos a perder 4 anos de sacrificios e de penas a que fomos obrigados, por culpa precisamente dos nossos próprios syrisas.

                           ALBINO ZEFERINO                                                   6/4/2015

sábado, 28 de março de 2015

O CONCEITO ESTRATÉGICO NACIONAL


          Desde sempre que os portugueses se preocuparam em definir o conceito estratégico nacional como se, sem ele, não fosse possivel viverem em paz e sossego. Mas afinal em que consiste esse tão importante e indispensável conceito? Eu diria que o que os portugueses procuram é algo que os guie nas suas vidas, à falta de capacidade e de determinação para saberem o que querem. O portugues médio é inconsistente nas suas convicções, é medroso em manifestar as suas opiniões e receia assumir responsabilidades. Daí a preocupação saloia na procura de um conceito (ou de um plano) que sirva a todos (e que seja comumente aceite) para orientarem as suas vidinhas.
          Já no principio da nacionalidade, a determinação, a valentia e a manha de Afonso Henriques e dos seus sucessores traçou o conceito estratégico nacional que consistiu, como se sabe, na conquista territorial à custa dos mouros. Mais tarde, definido o território nacional, a estratégia nacional passou a ser a descoberta de novas terras a partir das viagens maritimas. Interrompida esta estratégia pela perda da soberania para os espanhois, voltamos a ter estratégia a partir de 1640 com a reconquista da independencia. A estratégia de então passou a ser a exploração dos territórios ultramarinos. A partir do ultimato ingles, acabou essa estratégia e Portugal entrou em crise, sem estratégia definida nem objectivos desenvolvimentistas. Salazar voltou a definir uma estratégia que assentou na neutralidade na Guerra mundial e na defesa do ultramar portugues como parcelas do território nacional. Com a revolução dos cravos, surgiu novo conceito estratégico nacional assente em tres premissas: democratização, descolonização e desenvolvimento. A democratização ficou-se pela elaboração duma nova constituição politica, a descolonização traduziu-se na entrega pura e simples dos territórios ultramarinos aos movimentos independentistas comunistas que os reivindicavam e o desenvolvimento surgiu apenas com a adesão à então CEE, em 1986.
          E agora, passados 40 anos da última definição duma estratégia nacional, qual é a nossa estratégia? Eu diria que a estratégia hoje deixou de ser nacional. À falta de coragem e de determinação dos governos (eu diria até falta de conteúdo programático) passaram a existir tantas estratégias quantos os partidos politicos que existem. Para os europeistas, a estratégia é mantermo-nos na União europeia. Para os anti-europeistas, é sairmos da União europeia. Para os monetaristas, há os que defendem a permanencia no euro e os que desejam que saiamos da zona do euro. Para os socialistas, a estratégia é a defesa do Estado como motor do desenvolvimento nacional, enquanto que para os liberais é a libertação do Estado das responsabilidades económicas através da privatização. Para os comunistas, depois da queda do comunismo na antiga União soviética, ainda não percebi que estratégia nacional defendem na realidade (a não ser retirar o dinheiro aos ricos para o dar aos pobres).
         Enquanto não assentarmos em conjunto para onde queremos ir, como o faremos e quando, não poderemos ter veleidades em continuarmos a ser respeitados pelos outros e a desenharmos um futuro risonho para todos onde nos possamos orgulhar de ser portugueses e de proclamarmos a nossa soberania e independencia nacional.

ALBINO ZEFERINO                                                     28/3/2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

A VERGONHA NACIONAL


          Quando se fala de vergonha nacional é quando algo acontece no nosso país de tão relevante que define o nosso comportamento perante terceiros de uma forma chocante. Fala-se de vergonha nacional quando a selecção de futebol não consegue chegar ao apuramento ou quando o país se vê forçado a pedir ajuda externa para sobreviver. Contudo, não há obrigação nenhuma da equipe nacional chegar à fase de apuramento, nem o governo que pede a ajuda é mais responsável na tragédia do que os seus antecessores. Verdadeira vergonha nacional é quando acontecem fenómenos anormais de repercussão nacional da exclusiva responsabilidade do povo. Falo das aldrabices do Sócrates e do Salgado.
          Sócrates foi eleito primeiro ministro por duas vezes (uma delas por maioria absoluta) e nessas funções enriqueceu enganando vergonhosamente quem o elegeu (pelo menos aqueles que não estavam ao corrente das suas maroscas). É objectivamente uma vergonha para o país onde ele foi líder e para o povo (em geral) que o pôs no poleiro.
          Salgado não foi eleito mas eregiu-se em banqueiro nacional, por detrás de 150 anos de actividade séria e competente duma familia tradicional portuguesa de banqueiros, com o beneplácito dos vários governos que por ele passaram e sem contestação alguma por parte das instituições nacionais do sector.
          Ambos constituem, a meu ver, motivo de vergonha nacional. Sem o apoio (ou mesmo a cumplicidade) de muitos dos responsáveis pelo andamento da coisa publica não teria sido possivel que, tanto Sócrates como Salgado, pudessem ter protagonizado as malandrices e os crimes que cometeram. Sócrates roubou o erário publico (ou seja as pessoas que o elegeram) através de esquemas fraudulentos e criminosos que o vão levar à cadeia por muitos anos. Salgado enganou a familia, os amigos e os que nele confiaram o seu dinheiro, com esquemas tambem fraudulentos e com uma incompetencia gritante (considerava-se o banqueiro de Portugal que podia pôr e dispôr de tudo a seu belprazer).
          Ora a continuidade de situações que se vieram a revelar anormais e fraudulentas (e que por serem tão dificeis de aceitar, ainda hoje têm quem os defenda) durante tantos anos e tão profundamente se reflectiram na sociedade portuguesa, é motivo de vergonha nacional. Muita gente, como eu, se considera envergonhado por pertencer a um povo que permitiu com a sua tacanhez e ignorância que tais sujeitos ocupassem os lugares cimeiros que ocuparam e decidissem por nós os destinos deste pobre país entregue aos bichos. Para que a vergonha seja definitiva só falta que os juizes e alguma imprensa corrupta os absolvam dos seus vergonhosos crimes que prejudicaram milhões de pessoas e mancharam a reputação de um povo velho de séculos.

                          ALBINO ZEFERINO                                          25/3/2015

terça-feira, 24 de março de 2015

O FUTURO DA EUROPA


          Muito e muitos têm escrito sobre este assunto, manifestando aquela que hoje é uma preocupação colectiva sobre o futuro de mais de 500 milhões de europeus. A União europeia é actualmente aquilo que foi possivel fazer-se até agora de um continente dilacerado por duas guerras globais e inundado por povos e gentes de outras latitudes, fugidas às desgraças universais na busca da felicidade que não encontraram nas suas terras de origem.
          Desde os seus primórdios que a ideia de construir uma Europa unida e próspera radicou numa vontade colectiva e incontestada dos dois maiores povos europeus - franceses e alemães - em unirem os seus esforços para juntar a si todos aqueles que livremente aceitassem uma comunidade de regras e de principios sobre os quais se edificaria a comunidade de nações que comumente se definem como europeias. Só que, entretranto, afastado o espectro duma nova guerra, começaram a surgir as naturais diferenças entre uns e outros e naturalmente a grande e bela ideia se foi transformando num enorme quebra cabeças que, de avanços e de recuos tácticos, se volveu num enorme puzzle de onde já não é possivel sair, mas também que não progride sempre no mesmo sentido, nem a uma velocidade constante.
          "Growth alone will not stabilise Europe", dizia o editorial de hoje do prestigiado Finantial Times, acrescentando uma frase do italiano Mario Monti de que "France is Europe´s  big problem", referindo-se à quebra do eixo franco-alemão que, desde Adenauer e de Gaulle até Mitterrand e Kohl, constituiu a base sólida que permitiu chegar-se ao ponto de não retorno em que hoje nos encontramos. Que fazer então?
          Partindo do principio de que o problema económico está em vias de solução (parece que a estabilização dos mercados a isso sugere) subsiste por resolver o problema politico que está na base da crise que a Europa está a atravessar e que se manifesta na forma como o novo governo grego reage às regras comumente aceites para que a UE saia da crise. A procura duma geometria variável como o editorial de hoje do "El pais" espanhol sugeria como solução para a Europa poder arrancar de novo, parece ser o busilis da questão que aflige os lideres europeus confrontados com a teimosia grega e preocupados com as próximas eleições espanholas. O aparecimento de partidos abertamente contra a UE (ou pelo menos contra o seu desenvolvimento) tanto em Espanha como em França, não deixa de preocupar os europeistas, que receiam que uma falta de convicção europeia por parte duma maioria significativa da população europeia possa pôr definitivamente em causa o projecto europeu e o seu desenvolvimento.
          Parece-me que chegou o momento de baixar as máscaras e de discutir abertamente aquilo que se pretende, numa espécie de concílio laico, aberto a todos e disposto a pôr em causa tudo aquilo que se fez até agora e tudo aquilo que se pretende ainda fazer. Sem me considerar um federalista, como alguns demagogos gostam de ser conhecidos, mas também sem afastar os beneficios que tal formalismo institucional possa trazer ao processo, penso que seria útil institucionalizar constitucionalmente o principio da subsidariedade, aplicável tanto a nível governamental, como a nível dos parlamentos nacionais. Significa isto que a legislação de cada país deveria reflectir o enquadramento politico em que as instituições europeias se movem, constituindo um reflexo delas no espaço nacional e não sendo legitimo opor-se-lhes. O ensaio mal sucedido há uns anos da elaboração duma constituição europeia constituiu, a meu ver, um projecto extemporâneo desta tese, que permitiria afastar crises politicas, proporcionando um reforço mais fácil ao nascimento de mais politicas comuns e permitindo a continuação do alargamento a todos os países da zona europeia.

ALBINO ZEFERINO                                       24/3/2015
         

domingo, 22 de março de 2015

PORTUGAL A VOL D´OISEAUX


          Portugal foi sempre um país em construcção. Desde a sua fundação que se começou a expandir para sul à custa dos mouros. Terminada a conquista territorial, ensaiamos a descoberta do mar até chegarmos à divisão do mundo com os espanhois no tratado de Tordesilhas (que ninguem conhece além de nós). Veio depois a expansão ultramarina até à invasão espanhola que nos cortou as asas e nos ia engolindo não fosse a decadência dos Austrias. De novo independentes, esforçamo-nos por mostrar ao mundo que eramos capazes de progredir sozinhos (afinal precisamos do Brasil para essa tentativa). Após o liberalismo e da perda do Brasil começou a decadência, da qual só nos apercebemos com o ultimato ingles. A partir daí foi o desastre completo. Vieram depois a republica e mais tarde os cravos e o definitivo abandono do sonho impossivel. Hoje somos mais um entre muitos à espera de Godot. Assim se passaram quase mil anos entre soluços lamurientos de vidas tristes e arrastadas intercaladas por periodos de aparente desafogo e glória, produto dos fogos fátuos de que a nossa história é fértil. O que temos hoje além dessas memórias de grandezas passadas e efémeras?
          Teremos que mudar os nossos paradigmas se quisermos sobreviver neste mundo cão de permanentes desassossegos e de globalização acelerada. Sózinhos não conseguiremos, como nunca antes conseguimos. Sem os ingleses não teria havido glória em Aljubarrota, nem paz em Évora Monte. Só que agora o que mais poderemos ambicionar é uma paz partilhada com os outros europeus que nos acompanham nesta caminhada inacabada chamada União europeia. Por isso digo que é preciso fazer ver a esta pobre gente lusa que, por muito que nos aproximemos de angolanos, brasileiros, chineses ou outros amigos novos, é na UE que reside o nosso futuro. E mesmo assim não podemos esquecer-nos que, para nós, UE significa Espanha. É através da Espanha que recebemos a energia de que necessitamos e é através da Espanha que chegamos ao centro da UE. Saimos da Espanha e é com a Espanha que conseguiremos manter a nossa identidade nacional. Nunca contra ela. Sem interiorizarmos esta realidade nunca mais conseguiremos perder este complexo de inferioridade que nos vem dos tempos do isolacionismo. Ser portugues não é gritarmos aos quatro ventos que somos independentes há quase mil anos. Ser portugues (como ingles, estónio ou croata) é conseguir que a nossa identidade como povo antigo e nobre seja reconhecida no seio duma entidade maior e mais poderosa que tambem faz parte de nós e conosco conta para se desenvolver.

                         ALBINO ZEFERINO                                                    22/3/2015

sábado, 21 de março de 2015

PERSPECTIVAS E REALIDADES


          Aproximando-se o final de um ciclo politico com a realização das próximas eleições legislativas (as verdadeiras, as que contam porque escolhem caminhos) parece-me interessante perspectivar as realidades que hoje se nos apresentam. E quais são essas realidades? A primeira delas é a lição que estamos colhendo da rebeldia da Grécia face aos ditames europeus e que deverá servir-nos de exemplo futuro na escolha do novo governo que sairá das eleições do próximo outono. Se quisermos alinhar na contestação da realidade (somos um país endividado e portanto dependente da vontade dos nossos credores) a par da Grécia e de outros liricos, então deveremos preparar-nos para nova dose de austeridade ou pior ainda para privações efectivas de dinheiro e de condições objectivas para prosseguirmos o caminho iniciado vai já para 30 anos. Caso prefiramos manter o low profile e aproveitar o trabalho iniciado (mas longe de estar terminado) por Passos Coelho y sus muchachos (já infectados pelo fascinio do poder e portanto muito gastos e sem iniciativa) deveremos preparar-nos para nova vida mais recatada e simples do que aquela que muitos ambicionam e que uma verdadeira recuperação económica exige. E com quem?
          Na primeira hipótese, será com Costa y los suyos. Dentro do PS os que apoiam verdadeiramente Costa (e com quem ele poderá contar) são os antigos socretinos, ansiosos por recuperar o poder e poder esquecer o Sócrates. Mas, porém, sem maioria, Costa terá que se apoiar noutros. E esses outros não serão nem PSD nem CDS. Será a Mortágua e os jovens turcos do PC que vão apoiar Costa. Teremos assim em Portugal um Syrisa ao contrário. Uma frente de esquerda (ou frente popular, como antes se chamava) que nos empurrará para fora do sistema onde há 30 anos conseguimos entrar com muito esforço e preserverança. Costa e o seu PS darão a cara e a Mortágua e o seu bloco darão o litro. E o Junker dar-nos-à na cabeça.
          Na segunda hipótese, será com Maria Luis e os seus quadrilheiros. Verdadeira Pasionaria do equilibrio orçamental, será alçada à cabeça do grupo do centro direita (mas já sem Passos nem Portas, queimados pela Tecnoforma e pelos submarinos, respectivamente) para, a troco de umas festinhas na moleirinha por parte dos seus pares do Eurogrupo, impor um férreo regime de abstinência neste pobre país endividado por anos de roubalheiras e de abusos. Como se vê, as alternativas que se nos apresentam não são brilhantes.
          De quem foi a culpa? Eu diria que de todos os que permitiram que os Sócrates e os Ricardos Salgados deste mundo tomassem o poder que lhes abriu o caminho para fazerem as vilezas de que são acusados. Não nos esqueçamos que Sócrates ganhou a maioria dos votos dos portugueses por duas vezes sucessivas e numa das vezes por maioria absoluta (ou seja, juramos a pés juntos que aquele era o nosso homem). E o Salgado punha e dispunha dos governos do Barroso e do Sócrates (a um dava-lhe ordenado e a outro empréstimos a fundo perdido). Não nos queixemos portanto de estarmos agora a sofrer os refluxos da nossa inconsciência colectiva e da nossa ignorância atávica.
          Em qualquer dos casos as coisas importantes já estão definidas. O sistema bancário portugues ficará dividido entre os espanhois do Santander e os angolanos do BPI/BCP, com a Caixa nacionalizada a segurar as pontas. O resto está nas mãos dos chineses (Fosum e Three Gorges), dos franceses (Vinci e Altice) e a TAP logo se verá se ficará para a Ryannair ou para a Easyjet. Seja quem for que ficar a governar pouca margem de manobra terá. Mesmo os impostos serão comunitarizados em breve e deixaremos de poder decidir quem os paga e como os paga. Tudo virá de fora. É esta a realidade dos nossos tempos e serão estas as perspectivas com que poderemos contar.

                              ALBINO ZEFERINO                                             21/3/2015