terça-feira, 22 de julho de 2014

EM NOME DO ESPIRITO SANTO


          Decididamente Portugal não consegue sair das crises onde se mete ou onde o metem. Crise após crise, lá vamos conseguindo sobreviver, porém cada vez mais pobres, mais limitados nas nossas opções de vida e mais angustiados. Após a crise do Sócraes, a que prosaicamente se chamou crise financeira (na tentativa de limitar os seus estragos aos bancos), passamos alegremente e sem dar por isso à crise social, com o aumento exponencial do desemprego resultante das tentativas (as mais das vezes bacocas) de Passos e do seu Portas de reduzir a despesa publica e finalmente à crise económica, da qual teimamos em não sair (quem mandou a estas alimárias prescindir dum programa de apoio europeu apenas para mostrar à estranja que Passos e Portas tinham conseguido dar a volta à pista, quando ainda nem sequer tinham chegado a meio do percurso?).
          Já começavamos a andar por nós próprios, embora tropegamente, quando, de repente, desaba o Espírito Santo sobre nós, qual tempestade imprevista e indesejada no rescaldo do temporal furioso que finalmente dava mostras de acalmar. Começou com uns chuviscos que molharam apenas os mais próximos, para se ir alargando progressivamente à generalidade do país, afectando praticamente toda a gente. Parece que os estragos do mau tempo não se limitam às regiões fora de portas, mas que, à medida que se vão fazendo balanços, se vai verificando que o temporal é grosso e que não irá deixar ninguem seco e imune à molha. E de outro modo não se esperaria que acontecesse. Já se viu delimitar os efeitos dum furacão antes que ele deixe de soprar, ou mesmo já depois disso, antes de se constatarem in loco os estragos causados pelo vendaval?
          O centro do desastre situa-se, não nos suburbios como nos querem fazer crer, mas no coração da cidade, onde trabalham para cima de 25 mil pessoas, a maioria das quais vai ficar constipada para a vida inteira, tal será a molha. Os furacões constituem um processo meteorológico uno e indivisivel, que, como uma lombriga, vão de um lado para o outro, arrasando tudo por onde passam sem dó nem piedade. Enquanto não termina a sua viagem destruidora, o furacão tende a concentrar a sua energia no seu miolo, no centro, onde roda com mais força e onde destroi com mais violencia. E o centro deste furacão Espirito Santo está em Lisboa, na capital do antigo império, agora já só ruinas de tempos gloriosos onde os nossos maiores proclamavam o seu orgulho na portugalidade e na civilização dos povos. Não creio ser possivel separar, como os nossos responsáveis vêm proclamando, as consequencias nefastas deste furacão inesperado, entre os estragos provocados na periferia e os que fatalmente se vão reflectir na sede. E que estragos serão esses? Em primeiro lugar aumentará o numero de desempregados a juntar à horda dos já existentes, que suga os poucos recursos que o Estado surripia aos que ainda vão tendo alguma coisita. Depois vai secar definitivamente as fontes de financiamento nacionais que muito dependiam da acção da central, base e inspiração de negociatas escuras e dubias provocadas pelo furacão. E finalmente vai ter um factor sistémico sobre toda a meteorologia nacional, que é débil e influenciável por alterações climáticas maiores e absorventes. Os americanos chamam a estes fenómenos as tempestades perfeitas, porque são arrasadoras e não deixam nada nem ninguem de pé.
          Aguardemos pacientemente (não temos outro remédio) o desfecho de mais esta tragédia que nos caiu em cima, e que os anjos e os santos que protegem esta terra de Nossa Senhora nos ajudem a ultrapassar mais esta provação. Em nome do Espirito Santo. Amén.

                                        ALBINO ZEFERINO                                   22/7/2014

 

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