domingo, 11 de dezembro de 2016

O FUTURO NÃO ESTÁ ESCRITO NAS ESTRELAS


          No desejo de simplificar as coisas e os conceitos, os americanos inventaram uma expressão que significa muitas coisas e por vezes o seu contrário. Refiro-me ao conhecido "d´ont take it for granted", o que em portugues significa mais prosaicamente "não tomes por garantido o que é incerto".
Se nada tivesse acontecido de extraordinário nesta Europa atrapalhada, nos ultimos 40 anos, poderiamos hoje estar vivendo um periodo de glória anunciado no tratado de Lisboa e se calhar preparando-nos para integrar definitivamente as soberanias nacionais num grande projecto maior (federalista ou não) capaz de ombrear com os grandes deste mundo neste proceloso mar da globalização. Mas como nada disto aconteceu, porque entretanto os países europeus deixaram de pensar em bloco para discutirem entre si o que seria melhor (ou menos mau) para cada um deles, estamos hoje atravessando uma delicada fase no processo integrador europeu, cada vez mais incerto, não só quanto aos seus termos, mas até quanto à sua própria perenidade.
          Segundo os correspondentes do "Expresso" desta semana em Madrid, Paris e Roma referem, "Nas suas previsões para 2017, a agencia (de noticias) Bloomberg traça um cenário apocaliptico: sucessão de crises internacionais provocadas por Donald Trump, queda de Angela Merkel na Alemanha, partilha da Europa numa nova conferencia de Yalta hegemonizada por Putin, vitória de Marine Le Pen em França..." enfim, um cenário ainda mais tenebroso do que o do pós-guerra. Não creio que se chegue tão longe, tão depressa e tão simultaneamente. Não direi que todas estas coisas não possam acontecer, mas se acontecerem, não será tudo ao mesmo tempo. Isso sim seria apocaliptico!
          Que Trump venha a provocar (ou a intensificar) crises internacionais é de prever. Ele próprio já adiantou algumas:  endurecimento das relações com a Russia nos conflitos do Médio-Oriente, enfrentamentos com a China no sudoeste asiático, preocupações com o possivel desmantelamento da UE, isto sem falar na proliferação das armas nucleares, controle de armamentos, aumento do preço do petróleo e do dólar, etc. etc.
          Quanto a uma eventual partilha da Europa numa nova conferencia de Yalta hegemonizada por Moscovo, já me parece mais especulativo do que possivel. Em primeiro lugar, não creio que Angela Merkel abandone tão cedo a liderança alemã e por conseguinte europeia. Quando muito ver-se-á forçada a uma coligação com o SPD, que é tanto ou mais do que ela defensor duma UE unida e progressiva; Martine Le Pen vai certamente crescer eleitoralmente em França, mas não o suficiente para se tornar poder. Fillon, Valls e respectivos compagnons de route serão suficientemente fortes para evitar tal desfecho nas próximas eleições presidenciais. Pelo contário, julgo que Fillon será uma boa escolha para conduzir a França no caminho europeu, ao lado de Merkel (única forma de fazer progredir a integração europeia). Yalta foi há mais de 70 anos, no rescaldo duma guerra mundial destruidora e feroz, e onde houve necessidade de conter as ânsias conquistadoras duma URSS vitoriosa (por isso nasceu a DDR e a Europa se dividiu por várias décadas). Não é felizmente o caso de hoje, nem a Russia de Putin pode reivindicar à UE e aos EUA seja o que for.
          A geração que hoje reivindica o poder (ou já o conquistou em certos países - Tsirpas, Renzi, Cameron, Obama, Putin, Yglesias e outros) ainda não existiam quando a ultima guerra mundial desenhou o mapa mundo de hoje. O desaparecimento de paises (ou regiões) inexistentes (ou irrelevantes) antes da guerra, não é obstáculo para eles a uma nova redefinição do mapa geopolitico mundial. Desde que isso não fira os seus fantasmas ou as suas convicções nacionalistas, porque não sacrificar uma ou outra região (ou mesmo um país) aos interesses geoestratégicos de um continente ou de um grupo de países determinantes? Agora dividir de novo a Europa segundo critérios que já dsapareceram e de acordo com interesses pessoais e passageiros, não creio que seja viável nos dias de hoje. A UE é a unica maneira de fazer progredir a Europa de hoje num mundo globalizado que já não volta atrás. Quem ainda não percebeu isto, ou é ignorante ou malandro. Infelizmente há muito de uns e de outros em Portugal. E alguns são até as duas coisas.

             ALBINO  ZEFERINO                                                                      11/12/2016
         

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