sábado, 30 de julho de 2011

O LEILÃO

   Desde que os homens da leiloeira chegaram à casa da velha senhora que esta andava num desassossego enorme. Não conseguia dormir descansada, só pensava em tragédias e receava pelo seu futuro. O sobrinho jogador bem tentava acalmá-la dizendo-lhe que algo ficaria para eles depois das vendas das coisas leiloadas e que tinha grandes planos para investir o que lhes tocasse, mas a velha não se calava, recriminando o pobre rapaz pelo estado depauperado a que a familia chegara. De facto, se não tivesse sido o carácter dissipador do rapaz, que gastava o que a tia tinha e o que não tinha, não teriam chegado áquela deseperada situação. O jogo, as mulheres e os maus negócios tinham sido os grandes causadores da derrocada da familia. A própria senhora não se apercebera a tempo da escalada vertiginosa a que a natureza perdulária do sobrinho os tinha conduzido. Agora já era tarde. Desde há um mes que os homens da leiloeira tinham desembarcado na casa onde a familia vivia há tres gerações, para fazerem o inventário dos bens da velha senhora para serem leiloados, a fim de poder pagar aos credores as enormes dívidas que o sobrinho contraira com o aval da tia. Nunca a pobre senhora, na sua ingénua bondade, se apercebera de que umas simples assinaturas nuns papeis do banco que o sobrinho descontraidamente lhe ia regularmente apresentando invocando razões burocráticas, tivessem aquele desgraçado resultado. De um dia para o outro (até parecia um sonho para a velha senhora) a normalidade do dia a dia com as criadas, o jardineiro, o motorista, a cozinheira e até o rapazito dos recados, desaparecera como por milagre. Havia dias em que a velha senhora até perdia o apetite, ela nem sabia se por falta do que comer, se por puro fastio. O próprio sobrinho, antes tão gentil e educado, parecia outra pessoa. Não lhe respondia às suas aflitivas perguntas, falava-lhe por vezes em tom ríspido como se a culpa de tudo aquilo tivesse sido dela e nunca mais lhe fizera aquela agradável companhia ao serão, sobretudo nos dias em que lhe trazia papeis do banco para assinar. As amigas, que antes lhe telefonavam todos os dias, transmitindo-lhe a sensação de que tudo se passava á volta dela, deixaram de repente de a procurar. A senhora estava desesperada e até chegara a pensar que seria bom se Deus a levasse, poupando-a a estes sacrificios e áqueles que ainda haviam de vir.
           Chegou por fim o dia do leilão. A casa encheu-se de gente desconhecida, a maioria mal vestida e grosseira, afivelando caras patibulares, sem lhe ligarem nenhuma e ignorando a sua presença. O leiloeiro começou a licitação sem pedir sequer licença à senhora que, indignada, se sentou numa cadeira como se de mais uma cliente se tratasse. A licitação seguia monótona e á tarde, já a maioria das coisas tinha sido vendida. Os preços não tinham ultrapassado percentagens ridiculas do valor que a velha senhora supunha valerem as peças de familia, no meio das quais ela se habituara a viver toda a sua vida. O sobrinho, pretextando compromissos inadiáveis, nem comparecera ao leilão. No fim da sessão o leiloeiro despede-se cerimoniosamente da senhora, agradecendo e abandona a casa, deixando a velha senhora no meio dos tarecos que já não eram seus. Passeando melancolicamente entre cadeiras, mesas, aparadores, camas, tapetes, quadros, bibelots de familia, sofás e materiais de cozinha, a velha senhora parava, afagando já com saudade, alguns dos objectos vendidos. Até que, de repente, o céu de lua cheia escurece e uma enorme e pesada chuvada desaba sobre a cidade, como se estivesse em África. A velha senhora assusta-se com a violencia do temporal, pensando porem que deveria ser coisa de pouca dura, tal era a força com que a chuva caía. Contudo, em vez de sossegar, o temporal não amainava, agora acompanhado de raios e trovões ameaçadores. A velha senhora não sabe o que fazer, quase entrando em estado de pânico. Nisto, a terra começa a tremer, primeiro devagarinho, mas depois com violencia, fazendo abanar chão e paredes. O terramoto não pára até que a casa começa a desabar, primeiro uma parede, depois outra, mas logo a seguir toda a estrutura da casa desaba sobre si mesma, engolindo tudo o que se encontrava lá dentro. Antes de perder o conhecimento, a velha senhora ainda tem tempo de gritar: meu Deus, tende piedade de nós.
            No dia do enterro da velha senhora poucas pessoas compareceram. A maioria eram desconhecidos, talvez credores. Do sobrinho, nem sombra, dizem que fugira para o estrangeiro. Na pedra tumular, sobre a campa rasa, a Assembleia de Freguesia mandara gravar: " Aqui jaz Portugal, ilustre Senhora deste mundo-cão". 
 
                                                                       ALBINO ZEFERINO     30/7/2011

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