segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A SÉTIMA VIDA DE SÓCRATES

Como um gato esperto que se preza, Sócrates entrou na 7ª e última vida de que ainda dispõe. Com a vitória do seu figadal inimigo (o único à sua altura no contexto político vigente) sobre o candidato oficial do seu partido (que ele fingiu apoiar) nas recentes eleições presidenciais, Sócrates entrou na sua 7ª e derradeira vida política. Se por acaso Alegre tivesse vencido (à 2ªvolta entenda-se) este seria forçado pelo padreca Louçã a despachar Sócrates na primeira oportunidade para colocar no seu lugar o Costa da Câmara mais adaptável às veleidades frentistas do putativo presidente. Graças a Deus e ao povo portugues que votou em Cavaco este cenário catastrofista foi arredado do horizonte.
     Sócrates respirou de alívio e preparou-se para gastar a sua última vida no esforço desesperado de se manter no poder, qual lapa agarrada à rocha no meio da tempestade que nos assola e que não dá mostras de abrandar. Como gato encurralado, Sócrates terá que abandonar a estratégia de fingir que é de esquerda fazendo política de direita para, de uma vez por todas e de forma que os nossos credores não fiquem com dúvidas, assumir que quer reformar o país de forma a que possamos sair deste atoleiro sem comprometer definitivamente a nossa independencia.  
     Para Cavaco, medroso e timorato, é preferivel enfrentar-se a um sujeito a quem já conhece os truques (deixando para mais tarde a vingança da qual não vai desistir) do que aturar novatos cheios de sangue na guelra que não lhe ligarão nenhuma deixando-o esquecido neste 2º mandato que Cavaco julga que o vai deixar na história. De facto, como Miguel Sousa Tavares certeiramente assinala na última edição do "Expresso", uma dissolução da Assembleia por iniciativa presidencial poderá degenerar num impasse onde um governo minoritario seria substituido por outro governo minoritario, atirando o PS para o colo da esquerda e expondo-se a uma moção de censura vitoriosa na primeira oportunidade que os direitos dos trabalhadores fossem postos em causa, forçando o Presidente a explicações embaraçosas.
     Se quiser continuar no poleiro por mais algum tempo, Sócrates terá assim que resolutamente e sem subterfugios empenhar-se numa reforma a sério do sistema político portugues. A Comissão europeia aprovou no passado dia 11 de janeiro, para que não restem duvidas sobre o que Sócrates terá que fazer, um documento, o "Annual Growth Survey", onde ficaram expressas as linhas de força em matéria de reforma da legislação laboral: aumento dos impostos indirectos, enfraquecendo o carácter progressivo dos impostos; incentivo ao aumento dos horários de trabalho; elevação da idade da reforma e privatização dos sistemas de pensões; flexibilização da legislação que protege o emprego; redução dos apoios directos ao desemprego e liberalização do emprego no sector público. É de resto à luz destas orientações que deve ser entendida a recente proposta do governo aos parceiros sociais (que escandalizou a Intersindical) para que sejam reduzidas as indemnizações a pagar aos trabalhadores despedidos, que passarão a ter por base 20 dias e não 30 de salário; a imposição de um tecto máximo de 12 meses para essas indemnizações e a criação de um fundo para despedimentos. Recorde-se que Portugal é o único país da UE que não tem limitação às indemnizações resultantes de quebra do contrato de trabalho. Arrumar a casa é seguramente mais chato do que andar a pedir dinheiro emprestado por esse mundo.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  
 
 
                                    ALBINO ZEFERINO         30/1/11

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